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O COVID-19 em Pacientes com Câncer e Doenças Cardiovasculares:

Título: Características clínicas demográficas e epidemiológicas de pacientes com câncer e doença cardiovascular prévia hospitalizados devido ao COVID-19:


Dados preliminares do estudo de coorte prospectivo em cardio-oncologia (escrito por Flávio Cure Palheiro e publicado na Academia Nacional de medicina).



A infecção por COVID-19 pode desencadear um quadro grave de insuficiência respiratória aguda, porém pode acometer diversos órgãos, em particular o sistema cardiovascular.


Estudos recentes sugerem que pacientes do sexo masculino e idade avançada tem probabilidade maior de desenvolver formas graves, especialmente elevada quando comorbidades como doença cardiovascular, hipertensão arterial (HAS), insuficiência cardíaca (IC), diabetes (DM), doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer, estão presentes. As complicações cardiovasculares mais comuns são: arritmias, miocardite, insuficiência cardíaca e embolia pulmonar.

Materiais e métodos:

Utilizamos o registro existente de cardio-oncologia do Hospital Copa Star, para fazer uma análise prospectiva e observacional dos casos de infecção por COVID-19 em pacientes com a associação de doença cardiovascular pré-existente e câncer em atividade, no período de 09 de março de 2020 a 11 de maio de 2020.


Resultados:

Coorte composta por 23 pacientes, com doença sintomática e necessidade de internação hospitalar. A idade de 76 anos (57-91 anos) e 65% do sexo masculino. A neoplasia mais comum foi a de bexiga (26%), seguida por neoplasia de próstata (13%). Dentre os pacientes, 30% estavam em uso de quimioterapia ou imunoterapia. Sintomas de COVID-19 mais comuns foram: tosse (56%), febre (52%) e falta de ar (39%). Em relação as comorbidades cardiovasculares, 69% apresentaram HAS, 21% DM e 8% IC.


Conclusões:

Os dados preliminares mostraram-se compatíveis com o que é visto mundialmente em diversos estudos, com acometimento majoritariamente de pacientes do sexo masculino e idosos, com comorbidade cardiovascular principal a hipertensão arterial. Há necessidade de estudos para compreensão do acometimento em determinados tipos de tumores e esclarecer os riscos de diferentes comorbidades cardiovasculares e tratamentos anticâncer específicos.

1. INTRODUÇÃO


últimos meses, a doença infecciosa causada pelo novo coronavírus-19 (COVID- 19), uma doença causada pela síndrome respiratória aguda grave coronavírus-19 que pode levar à síndrome do desconforto respiratório agudo fatal, cardiomiopatia e arritmias.

Evidências recentes mostram que pacientes com câncer ou doença cardiovascular (DCV) apresentam maior risco de adquirir a infecção por COVID-19 e apresentar evolução desfavorável piores resultados em comparação com a população em geral.

Relatórios iniciais da China mostram que a taxa de mortalidade por COVID-19 foi mais alta entre pacientes com doença cardiovascular (13,2%) em comparação com outras comorbidades, e um relatório atualizado recentemente da Organização Mundial de Saúde mostra uma alta mortalidade (7,6%) entre pacientes com câncer.

Essa tendência é corroborada em uma revisão publicada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA de 7.162 pacientes nos Estados Unidos, onde doenças cardiovasculares preexistentes estavam presentes em 9% de todos os pacientes infectados e em 29% dos pacientes que necessitam de unidade de terapia intensiva).

Essa conjectura tem um grande impacto sobre o cuidado dos pacientes atendidos nos serviços de cardio-oncologia uma vez que lidamos com uma população com alto risco de complicações se adquirirem a COVID-19. Apesar dos dados de literatura mostrarem que a associação entre neoplasia e DCV são fatores de risco para infecção por COVID e que isoladamente estão associadas a uma pior evolução por COVID, dados que avaliem a evolução intrahospitalar dos pacientes com câncer e cardiopatia associados são escassos.

Em fevereiro de 2019 foi lançado o registro o serviço de cardio-oncologia do Hospital Copa Star com amplo apoio da equipe de oncologia e cardiologia da Rede Dor. Trata-se de um estudo de coorte pros-pectivo (CONEP), que coleta dados clínicos, demográficos e de desfechos clínicos durante a hospitalização dos pacientes acompanhados pelo serviço de cardio-oncologia.

Assim utilizando-se de um registro já em andamento, nosso objetivo foi descrever as características clínicas e demográficas nesta coorte inicial de pacientes cardio-oncológicos hospitalizados com COVID-19 em um hospital terciário.

2. METODOLOGIA


2.1 Tipo de estudo


Estudo de Coorte prospectivo.


2.2 Desenho e população do estudo

Estudo unicêntrico, prospectivo, observacional, envolvendo pacientes com diagnóstico de câncer em atividade e de doenças cardiovasculares e a confirmação da infecção por COVID-19, hospitalizados no hospital Copa Star. O estudo de coorte foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da instituição.

2.3 Critérios de inclusão

Foram incluídos pacientes com idade ≥ 18 anos, diagnóstico oncológico de câncer ativo, doença cardiovascular pré-existente (hipertensão arterial sistêmica, insuficiência coronariana crônica, miocardiopatia, doença cerebrovascular, fenômenos tromboembó-licos prévios, valvopatia, e doenças do pericárdio). Todos os pacientes estiveram internados no Hospital Copa Star com diagnóstico confirmado de Covid-19.

2.4 Critérios de exclusão

Pacientes sem diagnóstico de câncer ativo confirmado.

Exame de COVID-19 negativo.

2.5 Cálculo amostral

Não se aplica.

2.6 Seleção da População

Todos os pacientes com câncer ativo e doença cardiovascular pré-existente que deram entrada no Hospital Copa Star no período de 09 de março de 2020 a 11 de maio de 2020 com quadro clínico sugestivo de COVID-19, eram elegíveis para inscrição no Registro de cardio-oncologia.

De acordo com a prática internacional, pacientes foram considerados como tendo COVID-19 se um RT-PCR teste coletado de uma amostra de garganta ou nariz foi positivo para SARS-CoV-2. Pacientes com diagnóstico radiológico ou clínico diagnóstico de COVID-19, sem teste de RT-PCR positivo não foram incluídos nesta análise.

com câncer ativo foram definidos como aqueles com metástase, câncer ou em tratamento anti- câncer em qualquer ambiente (curativo, radical, adjuvante ou neoadjuvante) ou tratado dentro dos últimos 12 meses com quimioterapia citotóxica cirúrgica, ou radioterapia. Doença cardiovascular pré-existente foi definido como relato informado pelo paciente ou familiar de diagnóstico prévio de hipertensão arterial sistêmica, Insuficiência coronária crônica, miocardiopatia, doença cerebrovascular, fenômenos tromboembólicos prévios, valvopatia, miocardiopatia e doenças do pericárdio).

2.7 Procedimentos

Avaliação Inicial

Durante a internação (na emergência ou em qualquer unidade de internação), o paciente foi avaliado institucionalmente e os dados foram coletados a partir de ficha padronizada. Os formulários preenchidos na internação ou no setor de emergência e foram revistos pela equipe de especialistas em cardio-oncologia do grupo.

Seguimento

O acompanhamento foi realizado durante toda a internação até a alta hospitalar ou óbito com coleta dos dados clínicos, demográficos e epidemiológicos através de formulário próprio.

Análise estatística

Todas as informações incluídas nos formulários (anexo I e II) foram conferidas por um dos especialistas em cardio-oncologia do grupo e os dados foram inseridos no banco de dados para análise estatística pelos pesquisadores envolvidos. Nesta análise preliminar foi realizada a análise descritivas. As variáveis categóricas foram descritas pela sua frequência e as variáveis continua através de média e desvio padrão ou mediana e intervalo interquartil, de acordo com o padrão de distribuição, avaliado pelo teste de Kolmogorov-Smirnov.

Aspectos éticos

Serão utilizadas nesse trabalho as recomendações da OMS e da Declaração dos direitos de Helsinque e a resolução 466/2012 CNS. O estudo tem caráter observacional e o tratamento seguirá as diretrizes vigentes não sendo proposta nenhuma nova intervenção.

A identidade dos pacientes será preservada. Os pesquisadores irão armazenar os dados coletados até o final do estudo e fazer a análise dos mesmos.

Todas as informações serão confidenciais, sendo usadas apenas para pesquisa. Não há conflitos de interesse envolvidos neste trabalho tanto da parte dos pesquisadores como dos colaboradores, nem qualquer restrição quanto à divulgação pública dos resultados. Foi liberado a coleta de TCLE.

3. Resultados

Nossa coorte de pacientes consistiu nos primeiros 23 pacientes com câncer ativo e documentação comprovada de infecção por SARS-CoV-2 que se apresentaram como doença sintomática e necessitaram internação entre 09 de março de 2020 e 11 de maio de 2020 no hospital Copa Star.

Os dados demográficos estão apresentados em forma de gráficos. Dentre os pacientes incluídos a média de idade foi 76 anos (57-91 anos) e 65% do sexo masculino. (fig.1, fig.2) A neoplasia maligna mais comum foi neoplasia de bexiga (26%) seguida por neoplasia de próstata (13%), cólon e pulmão (8%). (fig.3) Tratamento quimioterápico ou imunoterapia estava sendo realizado em 30% dos pacientes. Em termos do padrão de apresentação do COVID-19, a maioria dos pacientes (13 [56%]) apresentou tosse, febre (12 [52%]) ou falta de ar (9 [39%]). Contudo, 21% dos pacientes já se apresentaram com hipoxemia a admissão. Em relação a doença cardiovascular associada, 16 (69%) pacientes apresentavam HAS arterial, 5 (21%) diabetes mellitus e em 8% dos pacientes quadro de insuficiência cardíaca estava presente. (fig.4)






4. Discussão


Nosso dados preliminares desta coorte prospectiva de pacientes com câncer e doença cardiovascular demonstrou um perfil demográfico constituído por pacientes majoritariamente masculino, idosos tendo como comorbidade cardiovascular principal hipertensão arterial e que se apresentaram com hipoxemia e insuficiência respiratória a admissão no hospital.


Os sistemas globais de saúde estão lidando com a pandemia de COVID-19, uma situação que está definida para ser um dos maiores desafios para esta geração de médicos. O fenótipo clínico e interações do COVID-19 com doenças pré-existentes cardio-oncológicas é pouco descrito. Alguns pequenos estudos retrospectivos concluíram que pacientes com câncer não são apenas mais suscetíveis a contrair o vírus em comparação com a população geral, mas também corre o risco de desenvolver doença mais grave. (4, 5, 11-16)


Todos esses estudos são coortes pequenas e que não incluem avaliação de doença cardiovascular associada. Para esclarecer a relação entre câncer, doença cardiovascular associada e COVID-19, são necessários conjuntos de dados coletados prospectivamente em esforço conjunto.


Devido à natureza da pandemia, grande parte da infraestrutura usual do profissional médico destinado a disseminação de conhecimento foi completamente desmantelada: reuniões clínicas locais, nacionais e internacionais foram atrasadas. Portanto, a criação de estratégias nacionais e internacionais para compartilhar dados de maneira rápida e eficaz são fundamentais durante esse período. Há uma necessidade, sem precedentes de aprendizado rápido e geração de evidências sobre as melhores práticas. (17, 18)


Neste cenário desafiador nosso trabalho descreve de maneira inédita a demografia de pacientes com COVID-19 que tem câncer e doença cardiovascular. O cenário de incertezas diante da COVID-19 não interrompeu o processo de coleta de dados, registro e seguimento dos pacientes cardio-oncológicos em nosso serviço admitidos por COVID-19.


O engajamento de nossa equipe de profissionais de saúde e de pesquisa na busca pela geração de informações que contribuam para o combate a pandemia COVID-19 sobrepôs o medo e angustia diante do desconhecido.

Nosso trabalho tem algumas limitações. Nossa análise é parcialmente dependente da disponibilidade e dos protocolos para realização do teste para COVID-19 e também conta a limitação do teste com RT-PCR, que tem sido descrito como um percentual elevado de resultado falso negativo.


O projeto pode portanto, subnotificar o total de casos de COVID-19 em pacientes com câncer, particularmente aqueles com sintomas leves ou sem sintomas e que não necessitam de tratamento nem são apresentados aos cuidados dos profissionais de saúde. No entanto, o número total de casos em pacientes com câncer permanece felizmente baixo, provavelmente refletindo um efeito físico com medidas de distanciamento para pacientes com câncer em hospitais.


5. Conclusões



Apesar dessas limitações, continuaremos a atualizar os dados da nossa coorte e com- partilhar nossos resultados com a comunidade científica. Com maior número de pacientes analisados, seremos capaz de responder a perguntas mais sutis e guiar ainda mais a pesquisa em cardio-oncologia.


Estudos futuros devem investigar se o a classificação do COVID-19 poderia ser mais refinada para adicionar granularidade para a nossa compreensão da heterogeneidade entre diferentes tipos de tumor, para esclarecer os riscos de diferentes comorbidades cardiovasculares e tratamentos anticâncer específicos.





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